• January 24th at 12:21am

  • May 15th at 9:41pm

    Dia 14 de Maio de 2013. Pela segunda vez entrava na Capela do Presídio Central de Porto Alegre (PCPA). Neste novo encontro realizaria, pela primeira vez, uma micro-oficina de teatro dentro da programação de atividades desenvolvidas pela ONG IGUALDADE-RS. O intuito era construir uma situação de confiança e afeto para posteriormente tentar desenvolver algo mais técnico em teatro.

    Certa vez eu disse, em uma entrevista, que o teatro havia me salvado. Ele teria sido o responsável pelas descobertas de quem eu sou e do que pretendo em vida. Os anos de experiência na comunidade do Tapuio (distrito da cidade de Aquiraz, região metropolitana de Fortaleza) me fez entender a arte como mecanismo de transformação social. O teatro nunca me foi imposto, ele foi sendo recebido pelas minhas necessidades de falar, pensar e gritar as inquietações com o social. Uma forma de expor o que penso e fazer com que os outros também questionem aquilo que me provoca. Assim, sempre que tento iniciar qualquer trabalho de teatro em grupo, seja com meus colegas de profissão, seja com alunos de cursos que ministrei ou com oficinas em eventos e projetos, eu tendo fazer com que as pessoas enxerguem o “teatro que me foi dado”. Esse “teatro dado”, significa ser sincero consigo mesmo, não fazer por ego, por desejo super-star, por necessidade de mídia. Me tornei artista porque aquilo que faço sou eu “macro-projetado”, ou seja, tentando me colocar na cabeça dos outros e fazendo-os inquietos. Deste modo, não tem sido diferente na relação com as meninas e seus companheiros no PCPA.

    No segundo encontro o foco das minhas atividades estava voltado para a percepção individual e coletiva. O objetivo era fazer com que os envolvidos começassem a enxergar melhor um ao outro e sua importância, seja como indivíduo e, posteriormente, dentro do grupo, para com isso tentar fortalecer as potencialidades e o incentivo mútuo no progresso/sucesso das atividades. Portanto, foram desenvolvidos exercícios de canto, percepção auditiva, confiança, interação e interpretação. Para minha surpresa, 80% dos envolvidos no projeto participaram das atividades e todas correram com excelentes resultados.

    Um dos exercícios aplicados consistia em reservar três a quatro minutos em dupla, onde cada participante deveria se apresentar com suas qualidades para o parceiro e posteriormente apresentar-se ao grupo, porém intervendo as personalidades. Neste trabalho apenas uma das duplas não concluiu, pois um dos parceiros não quis se apresentar em nome do colega. Entretanto, e para surpresa de todos, outro participante pediu alguns minutos a mais para ouvir o colega não representado e poder apresentá-lo ao grupo, incluindo-o no jogo.

    Concluídas as atividades daquele encontro, reservei alguns minutos para ouvir algumas das impressões e eis que me deparo com os seguintes comentários:

    - Foi bacana porque consegui me libertar mais, sair pela janela, sair do cárcere. Foi meio que viver um pouco do mundo. Esqueci o aqui, o preso e me senti livre por alguns instantes;

    - Foi bacana poder ver o outro, ver o grupo se mexendo, soltando o corpo, abrindo a mente;

    - Nossa! Hoje meu dia foi maravilhoso. Foi como se estivesse no colégio. Muita animação!

    Quando encerramos o encontro fizemos o anúncio de que eu havia conseguido a geladeira que tanto precisavam e que a doação aconteceria em breve, faltando apenas fechar as questões burocráticas para a entrada da mesma no presídio. Houve uma comoção e alegria por parte de todos “finalmente carne fresca e suco gelado!”. Um dos companheiros se aproximou com uma almofada que ele mesmo fez a partir de retalhos e me presenteou (fiquei comovido).

    Nosso próximo encontro esta marcado para o dia 4 de junho. Estou ansioso e tenho boas novas para uma das meninas que é instrumentista e tanto deseja um violão. ;)  

    EU PULEI O MURO. EU SAÍ PELA JANELA. EU ME SENTI LIVRE

  • May 4th at 6:22am

     

    Essa semana minha visita foi ao Presídio Central de Porto Alegre com o intuito de acompanhar e tentar engajar minhas propostas do Projeto BR-TRANS com as ações desenvolvidas pela ONG IGUALDADE-RS com presidiárias travestis e seus companheiros. A IGUALDADE-RS conseguiu, dentro do PCPA, garantir uma ala diferenciada para travestis e seus companheiros. Essa conquista se deu por meio do intenso e grandioso trabalho desenvolvido por Marcelli Malta e suas companheiras de luta em favor de políticas públicas mais competentes para travestis, transexuais e transgêneros.

    O que encontramos lá dentro? Primeiro, acho que devemos desmistificar um pouco o imaginário coletivo. Claro que tem o temor do espaço, os barulhos dos portões abrindo e fechando, cadeados travados, os olhares de medo, os rostos de crueldade e os corpos atentos, sempre preparados para qualquer sinal de perigo.   Entretanto, existem também os olhares de cumplicidade, de respeito, de consideração, de valorização e atitudes de extrema educação.

    Nosso encontro se deu na capela onde, após uma hora de espera, as meninas chegaram acompanhadas de seus respectivos maridos - O PCPA, por intervenção da IGUALDADE-RS, permitiu que na ala especial para as travestis os companheiros também pudessem morar. – O encontro é realizado pela ONG acompanhado de psicólogas, um advogado e um assistente social. Na ocasião a IGUALDADE distribui roupas, sabonetes, escovas e creme dental, mas também escutam as reclamações/sugestões além de assuntos como liberdade e profissionalismo. Nayara, uma das detentas, tenta nos informar que o presídio usa muito a imagem delas como “re-educandas” porque isso seria favorável para a instituição. Já Fabíola contra-ataca afirmando que Nayara está há pouco tempo, logo não consegue identificar a imensa diferença entre o antes e o depois da separação delas das outras alas. Entre as diferenças que posso citar, e que por alto tive notícias, são: ala mais limpa, mais organizada, mas segura, não há super lotação,  chuveiro quente, além de poder exercer seus direitos de travesti, como vestir roupas femininas e se maquiarem e se relacionarem tranquilamente com seus maridos. Esse último foi o que mais me chamou atenção, pois um dos companheiros relatou sofrer um duplo preconceito, o de ser “bandido” e “comedor de viado”. Eles, os companheiros, sofrem quando têm acesso as outras alas, pois as vezes não conseguem ao menos fumar um cigarro tranquilo ou jogar bola, ou até mesmo beber água no mesmo copo dos outros, pois podem ser agredidos verbal ou fisicamente.

    Existe um mundo lá dentro, um outro mundo, um universo paralelo. E sabe qual o grande medo delas? Enfrentar o lado de fora. Embora, lá dentro não seja tão diferente. O que muda é o local, mas o preconceito ainda existe. Dentro do presídio é mais condensado, compactado, como uma panela de pressão, com os nervos à flor da pele e explodindo a qualquer momento.  Entretanto, elas estão sendo respeitadas, elas podem amar e serem amadas, um amor que me comove, um amor de verdade, que no meio de tanta adversidade, tanto sofrimento, é isso que ainda salva.

     

    P.S. e ainda somos obrigados a aturar as últimas ações de um FDP como o Feliciano, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

    O OVO OU A GALINHA, O QUE VEM PRIMEIRO? ISSO FAZ DIFERENÇA?

  • April 29th at 2:19am

    Os próximos dois posts estão ligados no intuito de gerar um pensamento, questão ou, que sabe, um apontamento social. Assim, segue aqui a primeira parte das experiências recentes:

    Creio que sim, que no imaginário popular “lugar de travesti é na esquina, na pista”. Mas o que acontece quando se tenta romper essa imagem?

    Creio que, talvez, não seja romper, mas sim tirar as vendas, desembaçar os óculos, limpar os para-brisas e serem um pouco mais atentos.  O comum, hoje, é ver travestis na faculdade, na política, nas escolas, nos teatros, operadoras de telemarketing e top models. Isso sem falar nas cabelereiras, maquiadoras e artistas transformistas.

    Nesta semana Gisele Almodóvar teve uma vida bem agitada. Já na terça-feira conheceu Rafaela, uma transexual operada desde 2002 em Porto Alegre e que possui carteira de identidade com seu nome no feminino. Entretanto, Rafaela move um processo contra a UFRGS porque teve que abandonar seu curso de veterinária por causa das agressões verbais que sofria diariamente no campus da universidade. Na quarta-feira Gisele seguiu para prestigiar o show de Valeria Houston, uma brilhante artista com uma voz fenomenal. Valeria faz shows em diversas casas noturnas em Porto Alegre, seja gay ou não. Em seu último show, na casa Venezianos, Houston fez canções comoventes mostrando todo seu potencial, tanto em timbres masculinos como femininos. “Valeria tem uma energia espetacular, a casa fica toda aos seus pés, parece que cria-se um novo ambiente, um espaço mágico e sua voz me comove, me faz chorar de alegria e de admiração”, diz Gisele.

    Outras figuras importantes a citar em Porto Alegre são Marina Reidel que faz mestrado na UFRGS, além de funcionária da SEDUC RS e também trabalhar na cidade de Canoas, região Metropolitana. Não podendo deixar de falar na Marcelly Malta, ativista da IGUALDADE RS e uma das pessoas mais importantes na luta em favor do movimento LGBTT no Estado. Também tem a Britney, maquiadora profissional que desenvolve seu trabalho junto a agências de moda e publicidade, assim como grandes festas, todas da alta sociedade portalegrense.

    Neste momento não creio mais no mito do cisne negro, pois enquanto no Ceará ainda ficamos encantados com a vitória social esmagadora de Luma Andrade, tornando-se a primeira travesti doutora no país. Por aqui, parece que os patinhos feios há tempos descobriram os belos cisnes que são e já estão juntas, engajadas e lutando por mais espaço. Em Porto Alegre não é difícil ouvir falar de travestis e transexuais no meio acadêmico ou assumindo funções, antes, impossível para esse “perfil”. Claro, que não se nega, aqui, a enorme quantidade de travestis na Avenida Farrapos e vivendo de prostituição. Mas, mais importante que lembrar das meninas nas esquinas e em profissões consideradas menores (eu considero essenciais) é lembrar que muitas estão nas ruas porque foram agredidas nas escolas, nas igrejas, nas suas casas, no meio da rua e onde fossem. Portanto, melhor ficar em casa o dia todo e só sair linda e mitológica, como um Cisne Negro.

    A travesti nunca será marginal, pois ela não está à margem. A travesti está dentro, no miolo. As travestis nas ruas se prostituindo não são criminosos ou destruidores de uma moral. As travestis nas ruas são a mais pura prova das ações tenebrosas, agressivas de uma sociedade hipócrita. Logo, as travestis são “o verdadeiro filho”, renegado, do social. Portanto, devem ser assumidas, como tal!

    A TRAVESTI SOCIAL ou AS VERDADEIRAS FILHAS DA SOCIEDADE ou PARTE 1

  • April 19th at 8:41pm

    Encerrada nesta quarta, dia 18 de abril, a Curta Temporada do Solo “Uma Flor de Dama” na Casa de Cultura Mario Quintana, Teatro Carlos Carvalho, em Porto Alegre. A temporada foi uma das ações a se realizar dentro do projeto “BR-TRANS: Cartografia Artística e Social do Universo trans no Brasil” financiado pelo MINC e FUNARTE pelo Edital Interações Estéticas 2012 e em parceria com o Pontão de Culrura SOMOS-RS.

    "Uma Flor de Dama" realizou três apresentações nos dias 16, 17 e 18 de abril de 2013 com uma crescente de público. A sala Carlos Carvalho é pequena comportando apenas 75 espectadores conforme o formato proposto para esta curta temporada. No primeiro dia contou-se com a presença de 40 pessoas, mas o suficiente para fazer reverberar pela cidade o trabalho gerando, assim, viral nas redes sociais portoalegrenses, bem como programas de TV, Rádio e Jornais de forte circulação. Desde modo, o segundo dia rendeu casa lotada. Já o terceiro foi necessário abrir cadeiras extras e mesmo assim não comportou todos os espectadores, tendo que voltar alguns. Agora já se estuda a possibilidade de uma nova temporada maior na cidade e num espaço mais abrangente.

    A receptividade foi a melhor possível, entre artistas, travestis, militantes, universitários, professores e público em geral ficou a certeza de apresentações emocionantes e intensas que fez o público aplaudir várias vezes em cena aberta e viver as dores e angústias de Gisele Almodóvar. Dentre os comentários pode-se expor aqui:

    Cláudia Penalvo

    "…ontem me emocionei horrores com Silvero!
    lindo trabalho, delicado, forte, intenso, verdadeiro!
    desde nosso primeiro encontro tenho pensado na possibilidade de dar um destaque e um lugar na academia pro trabalho de voces.”

    Wesley Villagrán

    "… eu amei o espetáculo. Foi um dos melhores que eu já vi em minha vida. Você está de parabéns…"

    Leandro Ribeiro

    "… belíssimo trabalho. Poucas vezes um trabalho me prendeu tanto e me fez refletir de maneira tão intensa. Muito grato pelo espetáculo. Foi maravilhoso te ver em cena. Simplismente tu nos carrega e nos transporta por todo aquele universo. Pra mim, que retornarei àquela casa com Navalha na Carne em agosto, foi muito prazeroso. Teu espetáculo trouxe pra mim e por parte do elenco que ali estava ontem a atmosfera pliniana essencial para a manutenção de nosso espetáculo. Muito grat…"

    Wisgner Damien

    "…Assisti sua peça terça-feira na Casa de Cultura e saí encantado e abatido. É muita entrega!"

    UMA FLOR DE DAMA deixa "quero mais em POA"

  • April 15th at 1:41am

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    fotos de Walter Karwatzki.

     

    Gisele vai à Galeria de Arte

     

    Seriam os artistas capazes de mudar o mundo?

    Seria a arte capaz de mudar os pretensos artistas?

     

    Em 13 de Abril de 2013 Gisele Almodóvar Lachapelle Pereira Giffony Audrey Monroe decide visitar uma Galeria de Arte, mais especificamente o MACRS (Casa de Cultura Mario Quintana em Porto Alegre), para apreciar as obras do jovem e talentoso artista Ricardo Garlet na exposição “De Objetos à Personagens” com curadoria de Paulo Gomes.

    E o que Gisele achou da experiência? Ela responde: “Garlet tem um trabalho curioso, decifrável e revelador. Suas sobras são uma espécie de recorte do cotidiano e que provoca uma certa necessidade de criar histórias e justificar as figuras. A pintura, em óleo, aparenta desfocada e uma certa necessidade de quanto mais longe melhor para perceber, ou quem sabe, quanto mais distante melhor para disfarçar aquilo que está diante dos olhos e não se quer ver. Talvez eu esteja exagerando e puxando, ou forçando, para minha necessidade de questionar a sociedade sobre o que Caio Fernando Abreu vai diagnosticar como a cegueira social no conto “O Ovo”. Entretanto, de que serviria sair de minha casa para ver arte se a própria arte não for a resposta daquilo que me povoa, me inquieta?”

    Gisele circulou pelas obras vestida com um traje meio “ponto de esquina”, mas manteve-se em sua individualidade e tentou apenas passear e se embebedar de arte. Parecia que tinha acabado de terminar um programa em um motelzinho barato desses de centro de cidade grande, mas ainda com disposição para ver e refletir sobre si e seu lugar no social. Entretanto, algo foi muito perturbador nessa situação. Gisele atraiu muitos olhares, entre curiosos e inquisidores e com isso, por diversas vezes, se questionou “aqui é meu lugar? Eu posso circular? Uma travesti pode apreciar, tomar um bom vinho, comer bons canapés e sair de um local como qualquer outra pessoa? Ou isso é apenas coisa de minha cabeça? Será que estou tão refém do medo, de onde devo ou não ir, de qual é ou deixa de ser meu lugar? Que todo e qualquer olhar será de condenação?

    Confesso que não sei responder às questões de Gisele, mas sei que existe uma repressão enorme dentro dela, um medo gigantesco de está sempre agredindo a “moral e os bons costumes” e uma angústia terrível em ser aceita.

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    E OS ARTISTAS ESTÃO SALVOS?!

  • April 9th at 5:32am

  • March 19th at 7:10pm

    Leituras de livros como A BATALHA PELA IGUALDADE, TODA FEITA, ELA É SHOW e O VOO DA BELEZA, bem como descobertas e mente aberta para toda e qualquer influência capaz de povoar a cabeça e corpo deste artista inquieto e em processo de criação. Neste período as coisas mudam de concepção e encenação, não consigo deitar e não pensar como organizar todo o material investigado e os riscos que corro ao escolher aquilo que entra e sai. A única verdade é o quão difícil é iniciar um processo criativo, o quanto pareço iniciante, perdido e o quanto prova que nunca possuí formas/formulas de montar um espetáculo teatral. A única certeza de que possuo é a de que adoro quando tudo que me cerca passa a ter outros significados e o universo parece colaborar quando o objetivo arte, é social e não apenas individual ou exibicionista.

    Br-Trans começa a me revelar outros fascínios no universo trans que não estão, ou pouco estão, em processos como UMA FLOR DE DAMA, CABARÉ DA DAMA, ENGENHARIA ERÓTICA e YES, NÓS TEMOS BANANAS!. Neste novo trabalho tenho me questionado muito  sobre a velhice, a solidão e a morte na vida de travestis e transformistas. Por vezes isso tem sido doloroso e me feito derramar algumas lágrimas,  seja quando vejo vídeos crueis de assassinatos ou quando leio situações de abandono e desilusão. Entretanto, nem tudo é escuro, e me divirto, ou mesmo me renovo e re-acredito no mundo, quando vejo ou leio sobre fé, esperança e amor, muito amor por parte delas.

    O PROCESSO CRIATIVO

  • March 13th at 4:25pm

    O Projeto BR-Trans durante este período tem se dedicado às pesquisas teóricas através da bibliografia de autores cearenses e gaúchos. O foco principal deste período é investigar por meio de entrevistas transcritas, artigos científicos e teses, um material para compor a dramaturgia para encenação do espetáculo “BR-TRANS” que possui estreia prevista para Junho de 2013 em Porto Alegre (RS) e posteriormente temporada em Fortaleza (CE). Dentro dessas investigações o espetáculo irá tratar sobre questões de velhice e morte na vida das travestis e transformistas e como essas figuras encaram essas passagens da vida.

    Bibliografia:

    - COELHO, Juliana Frota da Justa - Ela é o Show: Perfomances Trans na Capital Cearense . Editora Multifoco - Rio de Janeiro - RJ – 2012 1ª Edição;

    - Vale, Alexandre Fleming Câmara – O Voo da Beleza: experiência trans e migração/ Alexandre Fleming Câmara Vale. – Fortaleza: RDS, 2012.   328p.;

    - Benedetti, Marcos Renato - Toda Feita: o corpo e o gênero das travestis / Marcos Renato Benedetti. - Rio de Janeiro: Garamond, 2005 (Gênero e  Sexualidade; Homossexualidade e Cultura);

    - Boër, Alexandre, Org. Construindo a Igualdade: a história da prostituição de travestis em Porto Alegre/ Alexandre Boër e outros. - Poro Alegre: Igualdade, 2003

    Entre 20 de fevereiro a 15 de Março de 2013

  • March 2nd at 6:07pm

    "Não acredito que o Drauzio tenha escorregado ao colocar as profissões mais visadas das travestis. É fato que existem várias nas universidades, inclusive doutora em Educação (como a cearense Luma Andrade), outras na política e cargos de confiança. Entretanto, a maioria ainda vive no esteriótipo de travesti que povoa o imaginário coletivo. Concordo, plenamente, na diferença entre travestis ricas e travestis pobres, pois ambos vivem em ambientes completamente diferentes no comportamento, na relação humana. Ainda está longe de quebrar a cultura imagétiva marginal e degradante das travestis, pois a sociedade ainda não entendeu que elas estão nessa posição não por revolta ou por quebra de padrões. As travestis são marginais porque esse é o produto frabricado por uma sociedade excludente na família, na escola e na religião, ou seja, os três pilares de uma sociedade cheia de paradigmas. Logo, a travesti não é, e nen nunca será, alheio à sociedade, pois elas são seus produtos, são seus filhos renegados.”

     

    O ARTIGO


    Da Folha

    Homens que são mulheres

    DRAUZIO VARELLA

    A saúde pública não pode continuar dando as costas para essa minoria de homens

    DE TODAS as discriminações sociais, a mais pérfida é a dirigida contra os travestis.

    Se fosse possível juntar os preconceitos manifestados contra negros, índios, pobres, homossexuais, garotas de programa, mendigos, gordos, anões, judeus, muçulmanos, orientais e outras minorias que a imaginação mais tacanha fosse capaz de repudiar, a somatória não resvalaria os pés do desprezo virulento que a sociedade manifesta pelos travestis.

    Quem são esses jovens travestidos de mulheres fatais, que expõem o corpo com ousadia nas esquinas da noite e na beira das estradas?

    Apesar da diversidade que os distingue, todos têm em comum a origem: são filhos das camadas mais pobres da população.
    A homossexualidade é tão velha quanto a humanidade, sempre existiu uma minoria de homens e mulheres homossexuais em qualquer classe social; caracteristicamente, no entanto, travestis só aparecem nas famílias humildes.

    Na infância, foram meninos com jeito afeminado que, se tivessem nascido entre gente culta e com posses, poderiam ser profissionais liberais, artistas plásticos, empresários, costureiros, atores de sucesso. Mas, como tiveram o infortúnio de vir ao mundo no meio da pobreza e da ignorância, experimentaram toda a sorte de abusos: foram xingados nas ruas, ridicularizados na escola, violentados pelos mais velhos, ouviram cochichos e zombarias por onde passaram, apanharam de pais e irmãos envergonhados.

    Em ambiente tão hostil poucos conseguem concluir os estudos elementares. Na adolescência, com a autoestima rebaixada, despreparados intelectualmente, saem atrás de trabalho. Quem dá emprego para homossexual pobre?
    Se para os mais ricos com diploma universitário não é fácil, imagine para eles. O máximo que conseguem é lugar de cozinheiro em botequim, varredor de salão de beleza na periferia ou atividade semelhante sem carteira assinada.
    Vivendo nessa condição, o menino aprende com os parceiros de sina que bastará hormônio feminino, maquiagem para esconder a barba, uma saia mínima com bustiê, sapato alto e um bom ponto na avenida para ganhar numa noite mais do que o salário do mês.
    Uma vez na rua, todo travesti é considerado marginal perigoso, sem nenhuma chance de provar o contrário. Pode ser preso a qualquer momento, agredido ou assassinado por algum psicopata, que nenhum transeunte moverá um dedo em sua defesa. “Alguma ele deve ter feito para merecer”, pensam todos.

    Levado para a delegacia irá parar numa cadeia masculina. Como conseguem sobreviver de sainha e bustiê em celas com 20 ou 30 homens, numa situação em que o mais empedernido machão corre perigo, é para mim um dos mistérios da vida no cárcere, talvez o maior deles.

    A condição de saúde dos travestis é precária. Não existe um serviço de saúde com endocrinologistas para orientá-los a respeito dos hormônios femininos que tomam por conta própria.

    Muitos injetam silicone na face, nas nádegas, nas coxas, mas sem dinheiro para adquirir o de uso médico, fazem-no com silicone industrial comprado em casa de materiais de construção, injetado por pessoas despreparadas, sem qualquer cuidado de higiene. Com o tempo, esse silicone impróprio escorre entre as fibras musculares dando origem a inflamações dolorosas, desfigurantes, difíceis de debelar.

    Ainda os portadores do vírus da Aids encontram algum apoio e assistência médica nos centros especializados, locais em que os funcionários estão mais preparados para aceitar a diversidade sexual. Nos hospitais gerais, entretanto, poucos conseguem passar da portaria, barrados pelo preconceito generalizado, praga que não poupa médicos, enfermeiras e pessoal administrativo.

    Os hospitais públicos deveriam ser obrigados a criar pelo menos um posto de atendimento especializado nos problemas médicos mais comuns entre os travestis. Um local em que pudessem ser acolhidos com respeito, para receber orientações sobre uso e complicações de hormônios femininos e silicone industrial, prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis e práticas de sexo seguro.

    A saúde pública não pode continuar dando as costas para essa minoria de homens, só porque eles decidiram adotar a identidade feminina, direito de qualquer um. Quem somos nós para condená-los?

    Que autoritarismo preconceituoso é esse que lhes nega acesso à assistência médica, direito mínimo garantido pela Constituição até para o criminoso mais sanguinário?

     

     

    Sobre o artigo de Drauzio Varela na FOLHA e os comentários gerados

  • February 19th at 3:45am

    Entre 19 de Fevereiro e 29 de Março de 2013 o “BR-Trans” se dedica à leituras e pesquisas na construção da dramaturgia do espetáculo a ser encenado ao longo do Projeto. Dentre as fontes de inspiração destacam-se os livros “Toda Feita - o corpo e o gênero das travestis” de Marcos Benedetti, “A Batalha da Igualdade” de Alexandre Boër e “Ela é o Show - performances trans na capital cearense” de Juliana Justa.

    O espetáculo BR-TRANS está voltado para o fato de como as travestis e transformistas encaram as questões de velhice e de morte. A idéia é que se realize de forma intimista e a partir de memórias, objetos de recordação e de como a morte chega no tempo certo ou fora dele para algumas.

    Em MARÇO:
    CABARÉ DA DAMA - DIA 22 NO SESC JUAZEIRO

    ENGENHARIA ERÓTICA - DIA 23 NO SESC JUAZEIRO

    UMA FLOR DE DAMA - EM FORTALEZA. DATA E LOCAL NÃO DEFINIDO

    Criação Dramatúrgica

  • February 5th at 5:34pm

  • February 4th at 2:03pm

    Durante a segunda semana de ações na cidade de Porto Alegre foi possível fortalecer as relações com instituições, casas noturnas, pesquisadores e artistas que serão de extrema importância para o êxito do Projeto.

    Junto à IGUALDADE-RS, e pelas mãos de Marcelly Malta e Luisa Stern foi possível o acesso a obra publicada de Alexandre Boer em 2006 “A BATALHA PELA IGUALDADE” , um registro de entrevistas com várias travestis e transformistas da época, relatando suas vidas e experiências. Acredito, então, que seja um forte instrumento colaborativo na construção da dramaturgia do espetáculo BR-TRANS. Com a IGUALDADE também foi possível um dialogo para a realização de uma oficina de teatro para travestis detentas, essa atividade deve acontecer em Abril/2013.

    No Micro-Seminário realizado no SOMOS foi possível o contato com Guilherme Gomes, que em conversa mais particular me apresentou o Livro “TODA FEITA”, um trabalho acadêmico com travestis de POA. Este já foi encomendado e aguardo entrega em Fortaleza.

    Entre os espaços visitados para a realização das atividades previstas no Projeto (apresentações, seminário, workshop, oficina) destacam-se:

    Vitraux – Casa Noturna que muito preserva os shows de transformistas. A Boite inteira pára suas atividades para concentra-se em um dos salões e para que todos apreciem as estrelas da casa. Semelhante à Boite Divine (Fortaleza) os shows acontecem no sábado as 2h da madrugada e este dia esta reservado para novos talentos. Já no domingo acontecem às 11h da noite com artistas veteranos na cidade. Nesta casa foi possível contatos para entre abril a junho/2013 realizar shows de Gisele Almodóvar;

    Cabaré Indiscretus – Casa Noturna que também abre espaço para as artistas transformistas. Diferentemente da Vitraux, nesta casa os shows acontecem entre 3 a 4h da madrugada, fato curioso, pois os mesmos seguram o público na festa, já que assim que acabam os shows a mesma esvazia quase por completa. Também em comparação à Boite Divine (Fortaleza) a abertura do show é marcada/anunciada pelo hino do filme “Guerra nas Estrelas”. A Casa é bem popular e uma das mais antigas da cidade possuindo atrações de quarta a domingo, fato esse que também se assemelha com a Divine. Nesta casa também foi possível contatos para entre abril a junho/2013 realizar shows de Gisele Almodóvar;

    Café Bertoldo da Casa de Teatro de Porto Alegre – Café cultural e temático e anexo à Casa de Teatro de Porto Alegre, um espaço de apresentações, oficinas e diversas outras atividades teatrais. O Café Bertoldo fica numa espécie de subsolo da Casa, é de uma decoração de extremo bom gosto e muito agradável tanto como espaço de descontração, como para realização de shows e espetáculos mais festivos e alternativos. As relações foram muito bem traçadas e será um dos espaços utilizados para apresentações do CABARÉ DA DAMA;

    Também é importante registrar os contatos com artistas de Porto Alegre que, muito provavelmente, darão sua contribuição no Projeto BR-TRANS por meio de oficinas de formação e do processo criativo de encenação do espetáculo/produto final:

    Valéria Houston (cantora)

    João Carlos Castanha (ator e transformista)

    Heinz Limaverde (ator, maquiador e educador)

    Fernanda Carvalho Leite (atriz e bailarina)

    Adriana Diffenti (Cantora e Preparadora vocal)

    Cassandra Calabouço (Bailarino e Drag Queen)

    Sandro Ká (Artista Plástico e Designer)

     

    Conclusão:

    Duas semanas bem produtivas, 15 dias de muitos contatos, vivência, mapeamento e convergências. Inicia-se agora um planejamento de execução das atividades práticas, bem como estudos teóricos e investigações acadêmicas/literárias, elaboração de agenda/programação das atividades (dias, horários e locais) tendo a residência em POA entre Abril e Julho/2013 para concretização das ações pendentes.

    2ª Semana – 28 de Janeiro a 02 de Fevereiro

  • January 30th at 5:29am

  • January 30th at 4:40am